Longe de casa, refugiados reconstroem uma nova vida por meio da moda e trazem suas identidades culturais para o Brasil.

By Giles Duley
Em meio a uma realidade marcada por repressões e crises humanitárias, a moda e a criatividade ocupam um espaço essencial na mente, atuando como refúgio e como uma forma de preservar a memória coletiva. Assim mostra a história da Frozan Sediqui, de 28 anos, enfrentou dificuldades de empregabilidade em seu país de origem, o Afeganistão. Após a tomada do poder pelo talibã em 2021, ela precisou encerrar sua carreira e deixar sua terra natal. Frozan se refugiou no Irã até conseguir vir para o Brasil, em 2023. Desde então, tem feito aulas de português e retomou a produção de peças artesanais inspiradas na cultura afegã.
Antes mesmo de sair de seu país, já havia aberto uma galeria de arte e começado a criar suas próprias semijoias e acessórios de madeira e resgatou essas atividades em terras brasileiras. “A produção das peças é realizada por imigrantes residentes no Brasil e que buscam na arte uma forma de expressão”, afirma Frozan. Seu trabalho é marcado por cores vibrantes, materiais como madeira e semijoias, além de padronagens que remetem à sua cultura e detalhes únicos que carregam histórias e identidade. Além de recomeçar sua vida no Brasil, Frozan tem oferecido oportunidades para que outras pessoas estrangeiras também se reconstruam por meio da moda. Segundo dados do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), o Brasil abriga milhares de pessoas refugiadas vindas da Venezuela, Síria, Afeganistão e Haiti, entre outros países. Cada uma delas traz consigo diferentes culturas e manifestações criativas. O Brasil, sendo um país multicultural, tem a capacidade de acolher essas pessoas e impulsionar seus trabalhos criativos, especialmente no campo da moda. Por meio dela, refugiados não apenas reafirmam suas culturas e as compartilham com o mundo, mas também encontram uma fonte de renda, conexão e pertencimento.
A internacionalização da moda nacional é um ótimo pontapé para refugiados que desejam se estabelecer. De acordo com dados da São Paulo Turismo (SPTuris), na edição de 2023 da SPFW (São Paulo Fashion Week), mais de 100 mil turistas visitaram a cidade durante o evento, e aproximadamente 38 mil eram estrangeiros. Isso mostra como a moda é valorizada enquanto expressão de diversidade. “Para mim, o Brasil abriu as portas. Consegui estudar, me formar e criar minha marca, que é de streetwear”, conta o designer de moda Ray Martinez, 34 anos, venezuelano. Com paixão pela moda desde pequeno, Ray conquistou uma bolsa no Senac para cursar design de moda. Desde então, conseguiu se estabelecer no país e correr atrás dos seus sonhos.
Pensando na representatividade, sua marca autoral, Rud Streetwear, é composta por funcionários de diferentes etnias, todos refugiados que chegaram ao Brasil em busca de uma vida melhor. A principal característica de sua marca é a valorização da cultura urbana, danças e vida noturna de São Paulo. O designer também organiza diversos projetos e desfiles com a proposta de promover a diversidade e a integração. Entre esses projetos está o Unidas, que leva a moda para as ruas de São Paulo, com o objetivo principal de valorizar corpos e culturas diferentes. Outro destaque é o Projeto Cerzindo, que visa capacitar refugiados no Brasil. Por meio de feiras e bazares de moda, o projeto busca promover a integração social e a empregabilidade dessas pessoas.
No Brasil e no mundo, a escolha da própria roupa vai muito além da estética, é resistência cultural e uma luta diária contra o sistema no qual muitas pessoas estão inseridas. Celma de Carvalho, angolana de 37 anos, fundadora do ateliê Kambadiami e residente no Brasil há 15 anos, é um grande exemplo de como a moda pode ser uma ferramenta de identidade e afirmação. Formada em odontologia e pós-graduada em prótese dentária, ela enfrentou o racismo de forma constante durante o exercício da sua profissão. “Minha capacidade era colocada à prova o tempo todo, especialmente por conta da cor da minha pele. Muitos pacientes simplesmente se recusavam a ser atendidos por mim”, relata. O impacto emocional foi tão grande que afetou sua saúde, ela desenvolveu gastrite crônica e passou a sofrer com crises de ansiedade.
Como forma de escape, encontrou no artesanato um novo caminho. Fez cursos de corte e costura, especializou-se na confecção de bolsas e, finalmente, se encontrou. “Me sentia feliz quando sentava diante de uma máquina de costura, sentia paz”, conta. Ao empreender, Celma se deparou com o racismo presente também no mundo da moda, a escassez e a desvalorização de itens africanos nas grandes lojas e confecções. Foi então que decidiu fundar seu ateliê, marca autoral de bolsas e acessórios inspirados na cultura africana, como o Samakaka de Angola, com seus padrões geométricos que representam a identidade do povo Mumuila. Mesmo tendo que deixar seu país, ela faz questão de reafirmar suas raízes e incentivar a valorização da cultura afro. “Minha marca celebra a ancestralidade, a diversidade cultural e mostra que as peças africanas podem ser elegantes, sofisticadas e cheias de significado”, afirma.
