De Camarões à Noruega, influências de diferentes culturas nos bairros de São Paulo

Por Beatriz Francisco, Maria Clara Martins e Stephanie Severo

 

Na metrópole paulistana, cozinhas africanas, gregas e escandinavas mostram como a gastronomia se torna força de ocupação e reinvenção urbana.

Tudo começou com a abertura de uma cafeteria brasileira em terras norueguesas, mas com o impasse do frio extremo por 6 meses no ano, acabou não sendo abraçado pela população escandinava. Por mais que o desejo de levar a cultura para outros lugares tenha dado errado para Denise Guerschman, ela não desistiu e após alguns anos, com muitos jantares e estudos, em 2017, nasceu o Escandinavo.

A história do restaurante se conecta a um movimento maior que se repete entre muitos donos de estabelecimentos visitados, antes de escolher o ponto, muitos dos donos dos restaurantes visitados partiram de uma mesma ideia: levar um pedaço de sua terra natal para algum bairro de São Paulo. Entre receitas que atravessam gerações e ajustes feitos para dialogar com um público diverso, essas cozinhas revelam o impacto da cultura na formação da cidade. E mostram como a gastronomia continua sendo uma das forças mais potentes para criar comunidade, especialmente quando alinhada a uma escolha estratégica de território.

São Paulo é uma cidade onde se viaja sem cruzar fronteiras. Basta mudar de bairro para encontrar influências culturais distintas, ainda que boa parte da cena gastronômica esteja associada às culinárias mais conhecidas pelos brasileiros, como a italiana, a japonesa, a chinesa ou a mexicana. Mas há muito mais além desse repertório familiar. A capital abriga um fluxo constante de imigrantes de diferentes partes do mundo, e é nesse movimento que surgem restaurantes que ampliam o mapa cultural paulistano.

A chef e crítica, Carla Pernambuco confirma essa força transformadora da cidade. Ao “A originalidade das propostas: cozinhas autorais, temáticas, chefs do mundo todo, de todo o Brasil… São Paulo é única na gastronomia.” Mesmo tendo morado em Nova Iorque e viajado o mundo cozinhando, ela afirma que poucas cidades reúnem tantos sabores tão distintos. Na sua visão, a maior dificuldade desses restaurantes é manter-se fiel à essência: “Manter-se original, tanto ao propósito quanto ao prato.” E dá como exemplo o clássico Bife Wellington do Carlota, que há 20 anos segue no menu, sempre respeitando a tradição, mas carregando a assinatura da casa.Foi esse cenário e a visão grandiosa que São Paulo tem na gastronomia que nos levou a procurar estabelecimentos menos óbvios, lugares onde a diversidade se manifesta nos detalhes, no tempero e nas histórias das famílias que decidiram reconstruir sua identidade à mesa.

O Escandinavo, restaurante culinária escandinava.

Ao caminhar pelas ruas de Pinheiros, é impossível não notar a diversidade de restaurantes, bares, cheiros e propostas culinárias. Entre elas, o Escandinavo se destaca. A fachada discreta contrasta com a sensação de atravessar o Atlântico assim que se entra: imagens de filmes sobre vikings, vilarejos congelados e o imaginário mundo nórdico costumam vir à mente.

Voltando a história do Escandinavo, ele começa com Denise Guerschman, mãe de Pedro Guerschman, que passou anos vivendo na Noruega e trabalhando em restaurantes locais. Foi dela a ideia de trazer para São Paulo um cardápio rotativo inspirado na culinária nórdica, com a autenticidade do que aprendeu lá. De volta ao Brasil, começou a organizar jantares especiais, reunir clientes aos poucos e, com o interesse crescente, decidiu abrir o restaurante no coração de Pinheiros, perto da Vila Madalena.

Pedro lembra que a proposta nasceu também de uma lacuna clara no mercado paulistano: “Minha mãe conhecia muito bem a culinária de lá. Morou na Noruega, trabalhou em vários restaurantes e, quando chegamos aqui, percebemos que quase não havia nada dessa gastronomia em São Paulo. A demanda até existia, mas a oferta era muito baixa.

A cultura escandinava é muito contra ao desperdício e se pauta no reaproveitamento de alimentos e reciclagem, o escandinavo segue essa mesma cultura em seus restaurantes, Pedro diz que eles produzem tudo e evitam comprar coisas de fora já prontas, com o pão que sobra eles produzem uma farofa e assim vai indo o dia a dia do restaurante.

Foi assim que, em 2017, o Escandinavo abriu as portas, trazendo para a cidade uma culinária rara e mais uma camada da diversidade que passa pelas mesas paulistanas. O escandinavo não mantém o mesmo menu, a cada 3 meses eles trocam o prato, mas tem um que é permanente e é o que mais sai, o salmão curado defumado. A relação entre comida e diversidade cultural, segundo Carla Pernambuco, vai além do prato. Ela afirma: “A comida desenha uma espécie de cartografia cultural da cidade. São Paulo encontra nos pratos um modo de reconhecer e celebrar quem a compõe.” Para ela, basta caminhar alguns quarteirões para atravessar o mundo: do lámen nipo-paulistano à doçaria reinventada, dos clássicos brasileiros às fusões mais improváveis, tudo convivendo de forma natural.

E essa memória se amplia também pela experiência de quem vive o restaurante. A de Nadedja Calado, jornalista de 28 anos, visitou o Escandinavo em três ocasiões diferentes, no restaurante, em um festival gastronômico e até em casa, quando seu noivo organizou um jantar com pratos preparados pela chef. Ela contou que, na primeira visita, escolheu a tábua com diferentes especialidades nórdicas e um chá gelado típico. Para ela, tudo soava exótico e ao mesmo tempo acolhedor. O que mais a marcou foi o brunost, o famoso queijo marrom norueguês, de sabor adocicado, que ela descreveu como algo próximo ao nosso doce de leite que, segundo ela, é praticamente impossível de encontrar em qualquer outro lugar no Brasil. Nadedja também comenta sobre o cuidado do staff e da chef: “O staff é super paciente pra explicar mil vezes o que é cada coisa e dão ótimas sugestões também.” Conversou longamente com a chef Denise e chegou a conclusão que o restaurante vai além da comida: há livros, objetos, elementos da cultura nórdica espalhados pelo ambiente, até o banheiro remete à aurora boreal.Ela saiu de lá com uma água Voss e uma colher de prata de cervo, presente da chef, como lembrança da experiência.No SP Gastronomia, ela provou o brigadeiro de brunost e o hidromel. Já em casa, experimentou o kotzbullar, prato sueco de almôndegas com purê, molho de pernil e bacon e acompanhamentos como conservas e ervilhas na manteiga. Nadedja descreveu essa refeição como “uma das melhores coisas que já comeu na vida”.Seu relato traduz exatamente o que o Escandinavo quer representar: que não é apenas um restaurante, mas uma porta aberta para uma cultura inteira, e a criação de boas memórias, como a que o marido criou com ela no jantar, do sabor ao ambiente. Hoje, o Escandinavo funciona na Rua Mourato Coelho, 1365, na Vila Madalena dos 12:00 às 16:00 e a noite, das 19:00 às 22:00. A experiência gastronômica varia entre 130 e 200 reais por pessoa.

Gu Mi Mat Jib, restaurante de culinária coreana.

Indo para uma região mais central de São Paulo, chegamos a um bairro marcado pela mistura viva entre a cultura coreana e a grega: o Bom Retiro. Quem visita percebe rapidamente a forte presença coreana no local, desde os restaurantes tradicionais até as lojas de roupas importadas diretamente de lá. Mas se engana quem acha que o bairro é totalmente coreano, a presença grega ali é bem forte, sendo o bairro com mais gregos no Brasil.

Saindo da estação Tiradentes e caminhando por uns cinco minutos, encontramos o Gu Mi Mat Jib, um restaurante pequeno e simples, escondido na Rua dos Três Rios.

O lugar serve comidas extremamente tradicionais da Coreia do Sul. A senhora Eun Joo Ki, ou Dona Sara, como prefere ser chamada, veio de Seul e decidiu abrir o restaurante aos 80 anos, junto de três amigas, sendo que a mais nova tem 65. Com um buffet variado de opções típicas, as quatro seguem cozinhando todos os dias, mantendo viva a cultura que trouxeram de casa.

“Gosto muito de vir aqui. Na primeira vez que vim no meu horário de almoço, comi coisas que eu nunca tinha visto”, contou Andréia Verraz, de 32 anos, que trabalha perto do restaurante. Dona Sara e suas amigas continuam, assim, transmitindo suas origens e seus pratos tradicionais para cada vez mais pessoas que passam pelo pequeno espaço.

O restaurante conta com um buffet variado de comidas típicas coreanas trazidas pelas senhoras diretamente de Seul. Com 60 reais, você pode comer a vontade tudo disponível no buffet e repetir quantas vezes quiser. O local não conta com muitas atendentes, funcionando no formato onde você serve sua própria comida. Se for visitar, é bom ir cedo, pois durante a semana o restaurante funciona das 11h30 as 14h30, apenas aos sábados fica aberto até as 16h.

Prato Grego, restaurante de culinária grega.

Caminhando mais alguns metros, chegamos à Galeria do Bom Retiro, onde fica escondido o Prato Grego, outro restaurante simples, mas cheio de história e carinho. A decoração típica faz parecer que existe ali um pedacinho da Grécia no meio do Bom Retiro. Além dos pratos tradicionais, o lugar é conhecido pelas animadas festas gregas e, claro, ninguém sai de lá sem quebrar um prato.

Stylianos Moyssiadis, filho de grego, nasceu ali mesmo, duas ruas atrás do restaurante. O surgimento do Prato Grego aconteceu quase por acaso, um verdadeiro “plano de Deus”, como ele gosta de dizer. Por muitos anos, Stylianos seguiu outro caminho, trabalhando na área de tecnologia. Uma viagem de trabalho de uma semana para a Bahia acabou virando uma estadia de dez anos e foi lá que ele encontrou o amor da sua vida.

De volta a São Paulo, ele abriu uma gráfica no espaço que hoje faz parte do restaurante. Participava do Rotary Club, da Associação Comercial e da Coletividade Helênica. Em meio a isso, decidiram organizar uma única festa grega, “mas na primeira pediram a segunda, e na segunda a terceira” e assim foram crescendo. As festas passaram a acontecer mensalmente, e depois a cada três meses, sempre com o mesmo propósito: fazer com amor, não simplesmente lucrar.

O Prato Grego, como restaurante, nasceu na pandemia. Em um momento de necessidade, Stylianos teve a ideia de vender os lanches que faziam sucesso nas festas. Tudo muito simples: ele e a esposa preparavam os lanches dentro da própria gráfica. Com o tempo, a clientela cresceu. Quando a loja ao lado vagou, eles conseguiram alugar o espaço e montar uma cozinha. Só quatro anos depois veio a profissionalização, com a chegada de Constantino Costa, chef grego e profundo conhecedor da culinária do país.

Em 2024, mais um passo importante: a loja embaixo do restaurante vagou, e eles finalmente puderam montar uma cozinha completa, toda desenhada pelo chef Costa, com os equipamentos necessários para produzir os pratos que hoje encantam o público. Assim, o Prato Grego segue firme em sua proposta simples e acolhedora no coração do Bom Retiro: cozinhar com amor e crescer aos poucos, para que cada vez mais pessoas descubram a delícia que é o restaurante e a riqueza da culinária grega.

Com pratos Alacarte, o restaurante oferece os mais variados pratos típicos da Grécia, contando com moussaka, café tradicional grego, suvlaki de falafel, baklava de sobremesa e muito mais. Um local bem em conta, onde o prato mais caro custa 49 reais. O atendimento é feito por profissionais de diferentes nacionalidades, todos muito simpáticos e acolhedores assim como o ambiente. O restaurante funciona de terça a sexta das 11h30 as 15h30 e aos finais de semana fica aberto até as 16h30.

“É um lugar muito bom, venho aqui várias vezes e sempre me sinto em um lugar muito gostoso e acolhedor, gosto muito da comida aqui e de quebrar os pratos no final”, nos contou Gabriel Das Virgens, de 20 anos. O jovem diz ter ido em momentos marcantes como no aniversário de sua mãe no ano passado, dessa forma criando memórias especiais em um local especial e cheio de amor como o Prato Grego.

Da Selva, restaurante com culinária amazônica.

Em meio ao ritmo acelerado da cidade, há quem encontre acolhimento no sabor de um prato. São Paulo é o destino de milhares de pessoas que chegam de longe em busca de novas oportunidades e melhoria de vida. No entanto, diante de rotinas exaustivas e sensação constante de não ter tempo para nada, muitos carregam silenciosamente a saudade da própria terra, dos cheiros e sabores que ficaram para trás.

Essa trajetória ganha forma na história de Rafael Lopes Ribeiro, atual chef do Restaurante DaSelva, cuja vida reflete o movimento de tantos brasileiros que deixam suas cidades em busca de novas possibilidades. Nascido em Belém do Pará, em uma comunidade ribeirinha, Rafael cresceu cercado pelas práticas agrícolas que sustentavam sua família. Foi nesse cotidiano simples, marcado pelo cultivo, que ele descobriu o prazer de cozinhar e desenvolveu o sonho de transformar essa paixão em profissão.

Com o desejo de estudar gastronomia e conquistar melhores oportunidades, decidiu deixar o Pará e atravessar o país rumo a São Paulo. A chegada à “selva de pedra” significou enfrentar rotinas intensas e se adaptar a uma cidade que, ao mesmo tempo. oferece possibilidades e impõe desafios. Durante esse processo, Rafael encontrou o DaSelva, um espaço que mistura cultura raiz, tecnologia e tradição, revelando-se um ponto de conexão entre sua origem amazônica e o futuro que ele buscava construir.

“No final de 2022 eu conheci o DaSelva. Cheguei como cozinheiro e fui crescendo junto com a empresa. Hoje sou chef e responsável por toda a cozinha”, conta. Para ele, o que diferencia o trabalho ali é a maneira como a equipe encara a cozinha não como palco de competição, mas como um ambiente de entrega coletiva. “A gente não trabalha com ego. Não existe essa necessidade de aparecer ou ser o melhor. Meu único objetivo como responsável pela cozinha é entregar uma experiência para todo mundo de forma igual.”

É nesse cenário que restaurantes como o DaSelva se apresentam como um refúgio para quem vive distante de casa e deseja se reconectar com a própria cultura. O DaSelva devolve a sensação de pertencimento por meio da comida, atuando não apenas como um espaço gastronômico, mas como um ponto de memória afetiva. A urbanista e Arquiteta Samira Severo, explica que “a gastronomia é um dos principais vetores de preservação da memória imaterial das comunidades”, desse modo ajuda a preservar tradições e vínculos que atravessam gerações. Essa força cultural transforma restaurantes em lugares de encontro e convivência indo muito além da experiência culinária em si.

Mais do que servir ingredientes da floresta, o DaSelva assume um papel afetivo de família, recriando em cada receita a lembrança de uma mesa compartilhada. Ao mesmo tempo, leva adiante sua missão maior, impulsionando a recuperação de áreas degradadas na Amazônia com soluções regenerativas que unem prosperidade de pequenos produtores e desenvolvimento sustentável. Dentro desse contexto, o restaurante se consolida como uma ponte entre a vida urbana e as raízes que são um lembrete de que, mesmo longe, ainda é possível encontrar um lugar que te faça sentir em casa.

Os clientes que frequentam o DaSelva costumam destacar não apenas a boa comid típica, mas também o acolhimento que envolve todo o ambiente. Para o chef Rafae essa é justamente a essência do restaurante. “Buscamos fazer com que a pessoa se sinta em casa, como um abraço”, afirma. Essa proposta ultrapassa o atendimento e chega ao prato, criando uma experiência que conecta quem está distante às raízes.

O amazonense Bruno Angelo é um dos frequentadores que sentiu essa força. Morando há anos longe da região Norte, ele conta que visitar o DaSelva despertou lembranças profundas, “matei um pouquinho da saudade, porque estava há muito tempo longe de casa”, diz. Para ele, pratos como pirarucu e tambaqui, foram “uma experiênciacarregada dos sabores do Norte, daquilo que faz parte da minha história.” O relato de Bruno reforça o impacto que o restaurante busca promover. No DaSelva, cada prato funciona como uma ponte entre São Paulo e a Amazônia, acolhendo quem chega de longe e aqueles que desejam conhecer outras culturas.

O restaurante está localizado na Rua da Consolação, 41. Funciona de Terça a sábado:12h às 22h e Domingo no horário de almoço. O carro-chefe do DaSelva é a Banda de Tambaqui, prato mais vendido da casa, servido em uma grande porção, ideal para dividir entre três ou quatro pessoas. Entre os pedidos mais frequentes também estão o filé de pirarucu, a caldeirada de tambaqui e o ceviche de pirarucu, que representam bem a culinária amazônica presente no cardápio.Os preços variam, com o prato mais caro chegando a cerca de R$180.